O Presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, concedeu uma longa entrevista a cerca de vinte jornalistas ibero-americanos, no passado dia 6 de Outubro, no Palácio de La Moncloa, que incidiu na XV Cimeira Ibero-Americana em Salamanca. A seguir, apresenta-se uma síntese das palavras de introdução do Presidente do Governo e das questões colocadas pelos jornalistas.
PALAVRAS DE INTRODUÇÃO DO PRESIDENTE DO GOVERNO
Quero agradecer a vossa presença neste encontro e dizer-lhes que, para Espanha, esta Cimeira Ibero-Americana é, talvez, o mais importante objectivo da política externa desta legislatura. A nossa política externa assenta em três grandes eixos: a Europa, a relação com a Ibero-América e a região do Mediterrâneo.
Esta Cimeira, que decorre em Espanha, tem um duplo objectivo, que é para nós transcendental. O primeiro deles é passar de um sistema de Cimeiras para um sistema de instituições da Ibero-América. Até aqui, a Ibero-América, como comunidade, encontrava-se anualmente. Agora, com a Secretaria-Geral Ibero-Americana permanente, o encontro acontece todos os dias. A vontade de que essa institucionalização da Comunidade Ibero-Americana tenha uma grande força manifesta-se na personalidade daquele que vai ser o seu Secretário-Geral, Enrique Iglesias, figura relevante que reúne um grande consenso e que, além disso, tem uma enorme capacidade de relacionamento, tanto com a Europa como com o continente americano.
Esta vai ser uma Cimeira mais de acordos que de discursos, mais de factos que de contactos. Os acordos baseiam-se fundamentalmente em três dimensões. A primeira delas centrar-se-á no fenómeno migratório. Quero recordar que em Espanha há cerca de um milhão de imigrantes latino-americanos e que estabelecemos um novo quadro legal. Agora queremos que esta imigração, que beneficia Espanha, beneficie também todos os países ibero-americanos através, sobretudo, das remessas e dos novos instrumentos financeiros que queremos estabelecer com elas.
A segunda dimensão é a económica. Há um grande encontro empresarial que, com o apoio dos Chefes de Estado e de Governo, tem como objectivo abrir uma etapa a novos investimentos e a alianças entre grupos empresariais. É um espaço de avaliação dos processos de integração económica no continente americano e da sua relação com a Europa, de análise dos desafios energéticos e de tudo aquilo que pode ser uma definição de posições comuns da Comunidade Ibero-Americana em face dos desafios da globalização, no âmbito da Organização Mundial do Comércio.
A terceira dimensão é a cooperação; quer no âmbito político, quer no âmbito cultural e educativo. A cooperação política traduz-se, fundamentalmente, na procura de uma agenda comum dos ibero-americanos na ordem internacional, sobre temas como as Nações Unidas, as relações transatlânticas, a consolidação dos processos de institucionalização democrática ou o Estado de Direito.
A cooperação cultural tem como objectivo relançar duas línguas que unem a Comunidade Ibero-Americana, que estão a crescer no mundo e que penetram em muitos âmbitos culturais. Também significa iniciativas como a Carta Cultural Ibero-Americana.
Por último, está a cooperação no âmbito educativo, do conhecimento, das nossas universidades. É necessária mais educação ibero-americana. Isto tem dois aspectos relevantes. O primeiro é o projecto da troca de dívida por educação, que Espanha já iniciou com alguns países ibero-americanos e que continuaremos com novos países. Pretendemos que seja um modelo que se estenda a outros países europeus e que beneficie a América Latina. O segundo é a relação entre os ibero-americanos, especialmente a situação daqueles que vêm para Espanha no intuito de a conhecerem, de estudarem, de se formarem. Há um crescente número de ibero-americanos, as elites do futuro próximo, que estão a formar-se em Espanha com bolsas de estudo das nossas universidades. Há que criar uma comunidade de doutorandos, de doutores formados em Espanha e Portugal e, a situação inversa, ou seja, espanhóis que foram fazer as suas investigações num país da Comunidade Ibero-Americana.
PERGUNTAS
Pergunta (Alberto Peláez, “Televisa”, México). Nos últimos anos proliferaram bandos latinos, como os Latin Kings ou os Ñetas, inclusivamente membros do cartel de Juárez, do México. Como irá ser abordada a questão da segurança e de que maneira vai ser impedida a sua entrada em Espanha?
Resposta. Espanha tem uma atitude de combate permanente às máfias provenientes de países ibero-americanos ou de outros países. Para sermos eficazes nessa luta contra estas organizações criminosas, o caminho é a construção do Espaço Judicial Ibero-Americano. Isto algo é de decisivo. A construção do Espaço Judicial Ibero-Americano, que começou a percorrer o seu caminho no ano passado, na Cimeira de Ministros da Justiça de Cartagena das Índias, tem que ser acompanhada, essencialmente, de uma boa articulação com os serviços de informação. Todos os fenómenos atrás dos quais se pode esconder um enriquecimento ilícito devem ter uma resposta de segurança activa. É, sem dúvida nenhuma, um dos desafios mais importantes que todos temos de enfrentar, porque o combate à criminalidade é a garantia da democracia. Espanha colabora com muitos países latino-americanos no melhoramento dos sistemas de segurança, com muitos corpos judiciais. Para obter uma maior eficácia, como já disse, é imprescindível a construção do Espaço Judicial Ibero-Americano.
Pergunta (Tito Drago, “Comunica”). É previsível que na próxima Assembleia-Geral das Nações Unidas, Enrique Iglesias fale em nome da Comunidade Ibero-Americana. Nesse sentido, representará a Ibero-América noutros fóruns internacionais?
Resposta. Do meu ponto de vista, seria muito desejável que a Comunidade Ibero-Americana começasse, a partir da Cimeira da Salamanca, a falar a uma só voz no maior número de fóruns internacionais. E essa voz é uma voz acreditada, a voz de Enrique Iglesias. As Nações Unidas interessam-se e apoiam a Cimeira Ibero-Americana. A melhor prova disso é que Kofi Annan vai estar em Salamanca e vai falar com os Chefes de Estado e de Governo. As Nações Unidas fomentam a integração, a cooperação do maior número possível de países com elementos comuns. Na ordem internacional para a qual caminhamos, uma força crescente, como é a voz ibero-americana, irá ter um grande peso. Portanto, eu sou partidário de que Enrique Iglesias fale em nome da Comunidade Ibero-Americana no maior número possível de fóruns internacionais, e espero que possa levar posições comuns sobre assuntos transcendentais de cariz internacional.
Pergunta (Augusto Zamora, “El Nuevo Diario”, Nicarágua). Qual é a posição de Espanha em relação a processos como o ALCA e o ALBA, assim como em relação às contradições existentes entre alguns países da América Latina e os Estados Unidos?
Resposta. Esta é uma Cimeira Ibero-Americana e, evidentemente, a Ibero-América tem que dar resposta aos seus assuntos comuns e neles estão englobadas as suas relações com a União Europeia e com os Estados Unidos. É também sabido que o Governo de Espanha, nos seus encontros com o dos Estados Unidos, revela e dá sempre a sua óptica/perspectiva, a sua visão, sobre a Ibero-América e, em particular, sobre os seus países. Acredito que essa relação deve ser de respeito e de colaboração e, certamente, Espanha será sempre uma voz pronta para promover a compreensão e o apoio aos países ibero-americanos.
Pergunta (Ana Anabitarte, “El Universal”, México). No próximo ano há eleições presidenciais no México; acha que o Presidente Fox e o México perderam liderança?
Resposta. O México tem uma liderança evidente na América Latina, e ainda mais para além da América Latina. Está a representar um papel determinante no processo de reforma das Nações Unidas. O México é uma potência económica. Está num processo interno de eleição do Presidente, mas isso não afecta o peso, a força que o México tem. Por outro lado, aproveito para sublinhar que a relação que tenho com o Presidente Fox é magnífica e que encontrei sempre nele um apoio permanente e uma proximidade muito directa com Espanha, o que quero agradecer publicamente.
Pergunta (Luis Méndez, “Reforma”, México). A presença, em termos económicos, de Espanha na América Latina não corresponde à presença da América Latina em Espanha. Como se pode construir um verdadeiro bloco capaz de falar nos fóruns internacionais, sem uma sustentação económica?
Resposta. Temos o maior interesse em que esse processo se equilibre. A instituição que é a Secretaria-geral Ibero-Americana vai dar azo a que tudo mude, porque haverá um interlocutor que permitirá que todos os países, através de uma convenção internacional, possam actuar em nome da Ibero-América. Por exemplo, dirigir projectos nos âmbitos económico, político e social. A melhor prova é esta Cimeira, a qual, insisto, será um encontro de decisões, de factos, que tratará de assuntos relevantes como é o das remessas dos emigrantes, a troca de dívida por educação, posições comuns perante a globalização, que vão ser postos em prática pela Secretaria-Geral, que vai estar sediada em Madrid e terá todo o apoio de Espanha para cumprir esses objectivos. Sem qualquer dúvida, na Comunidade Ibero-Americana haverá um “antes” e um “depois” desta Cimeira. Primeiro, porque há uma vontade política colectiva de que assim seja. Segundo, porque necessitamos de que isso aconteça. Terceiro, porque temos a Secretaria-Geral; e, quarto, porque, apesar das dificuldades que há na Ibero-América, temos que oferecer uma mensagem optimista do contexto económico e social. Sobretudo social, que é o que mais nos deve preocupar. A América Latina tem vindo a crescer cerca de 6%, e esse crescimento tem que se converter em crescimento social. Espanha investiu, nas duas últimas décadas, 70.000 milhões de euros na Ibero-América. Isso representa uma grande responsabilidade. Previsivelmente haverá uma segunda vaga de investimentos. Temos que aproveitar esse volume de investimentos para que a América Latina cresça e se equipare socialmente, pois é este o principal problema que enfrenta. Espanha tem que estimular, fomentar, abrir as suas possibilidades de alianças económicas estratégicas com grupos empresariais da América Latina, por exemplo com o México.
Pergunta (Silvia Pisani, “La Nación”, Argentina). Como avalia o fracasso das negociações entre o Governo argentino e a empresa Aguas de Barcelona? Isso representa um risco para novos investimentos na Argentina?
Resposta. Acredito que avançámos imenso nestes últimos meses. Havia problemas com várias empresas espanholas e todos foram ultrapassados satisfatoriamente. Todas as empresas espanholas vão permanecer na Argentina e só resta o problema pendente com a Aguas de Barcelona. Julgo que é preciso sermos prudentes e dar algum tempo; está-se a tentar encontrar uma solução. É difícil, mas, em todo caso, insisto, todos os problemas entre as empresas espanholas e o Governo argentino ficaram resolvidos.
Pergunta (Patricia Villarruel, “El Comercio”, Equador). Tendo em conta que em Espanha vivem 500.000 equatorianos que contribuem com cerca de 35 milhões de euros mensais para a Segurança Social, como perspectiva Espanha a sua relação com o Equador?
Resposta. Há três aspectos concretos e um mais genérico. O Equador é o país latino-americano que mais emigrantes tem em Espanha. Com o último processo de regularização, são perto de 500.000 imigrantes. Isto beneficiou muitos equatorianos, que estavam ilegais, que sentiam medo e insegurança. Sublinho isto porque, quando saio, para participar nalgum acto público, é raro que não se aproxime de mim algum equatoriano para agradecer e referir que se sente mais tranquilo. Mas, além disso, torno a insistir no fluxo de remessas dos emigrantes para a América Latina. Temos de lhes dar uma maior utilidade e um potencial de rentabilidade social nos países para onde vão essas remessas. Esta é uma das grandes ambições que temos como Governo – que possa existir uma via, através da cooperação com as instituições financeiras, de empréstimos em função dessas remessas dos imigrantes. Empréstimos para a habitação ou para qualquer necessidade básica. Em segundo lugar, no ano de 2006, a América Latina, no seu conjunto, vai receber cerca de mais 300 milhões de euros de cooperação espanhola. Como sabem, este ano acabamos de apresentar o Orçamento Geral do Estado, no qual a cooperação espanhola foi aumentada em mais de 700 milhões de euros e, destes, cerca de 40% destinam-se à cooperação com muitos países latino-americanos. Certamente, a América Central é uma das áreas onde está prevista maior cooperação. É um esforço extremamente ambicioso, pois a cooperação espanhola vai situar-se nos 3.200 milhões de euros. Um montante, do qual 30% se destina a escolas, centros de saúde, centrais eléctricas, saneamento na América Latina. Em terceiro lugar, está o apoio político que possamos dar à institucionalidade de cada um dos países. Nesse sentido, acompanhámos os múltiplos acontecimentos que viveu o Equador.
Pergunta (Luis Castro, “Notimex”, México). Acaba de dizer que esta Cimeira é uns dos objectivos mais importantes da política externa desta legislatura; no entanto, quando vemos a forte agenda com o Mediterrâneo e com a Europa, questionamo-nos sobre o que tenciona fazer para que esta afirmação seja uma relaidade?
Resposta. Esta Cimeira é um quadro fundamental. Estamos há mais de um ano a trabalhar nela. A Vice-Presidente do Governo visitou, no mês de Agosto, muitos países da América Latina na preparação deste encontro. Mantenho uma comunicação fluente e constante com a maioria dos Presidentes latino-americanos. Quase 40% da nossa política externa está centrada na Ibero-América.
Pergunta (António Garcia Sampaio, “Agência Lusa”, Portugal). O Presidente e o Primeiro-Ministro do Portugal não participaram na última Cimeira, mas participarão desta vez. Espanha está muito optimista e confiante relativamente a esta Cimeira; que papel gostaria que Portugal assumisse neste processo?
Resposta. Portugal e Espanha não falam a mesma língua, mas têm a mesma linguagem política e visão do mundo. E neste momento mais ainda porque existe uma relação fluente com o Governo português. Portugal e Espanha acordam posições comuns sobre a União Europeia, a sua visão ibero-americana e certamente todo o caminho que Espanha percorre na Ibero-América, e ainda mais a partir da Cimeira, quer fazê-lo lado a lado com Portugal. Isto é para nós essencial. Estamos muito satisfeitos pelo interesse que o Governo português tem no espaço ibero-americano.
Pergunta (María Alejandra Trujillo, “Radio Caracas”, Venezuela). Qual a posição do seu Governo perante a política de expropriações contra empresas e terrenos privados anunciada pelo Governo venezuelano? Os empresários espanhóis mostraram-se preocupados com esta política? O assunto será tratado, como sugeriu o Ministro Miguel Ángel Moratinos, na Cimeira?
Resposta. Não tivemos nenhuma comunicação de empresários espanhóis sobre este assunto. Não me parece apropriado abordar questões de política interna dos países, a poucos dias da Cimeira. Em qualquer caso, e dado que estarei com o Presidente Chávez, sem dúvida falaremos disso. Perguntar-lhe-ei e darei a minha opinião.
Pergunta (Yolanda Vaccaro, “El Comercio”. Peru). Diz-se que o Peru tem uma posição de liderança na Comunidade Andina dada a estabilidade democrática e política que alcançou nos últimos quatro anos. Está de acordo com esta apreciação? Como se articula isso com uma taxa de aceitação de 17% dos cidadãos em relação ao Presidente Toledo?
Resposta. É evidente que no Peru houve um processo de estabilidade e crescimento económico. Também é evidente que tem inúmeras necessidades sociais e, portanto, o tempo social é o que corre mais directamente no Peru. Não posso fazer de sociólogo e opinar sobre o grau de aceitação do Presidente Toledo e o que é o que irá acontecer nos processos eleitorais. Mas posso salientar que é imprescindível para o Peru manter a estabilidade institucional e atacar os sérios problemas sociais que tem, mantendo o crescimento económico.
Pergunta (Patricia Alvarado, “CNN en Español”, Estados Unidos). Os últimos processos eleitorais da América Latina deram a vitória à esquerda. No México haverá um candidato da esquerda que, pela primeira vez, tem probabilidades de ganhar. De que forma vê esta influência no sentido de atenuar os problemas urgentes que afectam a Ibero-América?
Resposta. A América Latina, quer pela necessidade de estabilidade política democrática em muitos países, quer pela necessidade de atacar os seus problemas sociais mais lacerantes da desigualdade e da pobreza, necessita de um grande projecto democrático e social.
Pergunta (Erika Fontalvo, “Radio Caracol” e “El Espectador”, Colômbia). Poucos países como a Colômbia se confrontam com uma situação tão complexa. Como pode esta nova Comunidade Ibero-Americana, que pretende ser relançada a partir daqui, comprometer-se com a solução de um conflito que, de algum modo, envolve vários países?
Resposta. A Colômbia sofre uma violência absolutamente intolerável, imoral. Tanto faz dizermos que essa violência se fundamenta numa teórica bandeira política ou nos lucros obtidos da droga. Do ponto de vista moral, ambas as coisas me repugnam de igual maneira. A Colômbia sofre esta situação há muitos anos. Acredito que o Presidente Uribe lançou um combate que está a dar resultados. São resultados a longo prazo, visto que o tumor está muito disseminado, como os colombianos muito bem sabem. E, certamente, o apoio da Comunidade Ibero-Americana para erradicar organizações violentas ou terroristas, o apoio para abrir processos de paz, como inteligentemente fez o Presidente Uribe, deve ser absoluto. Espanha foi neste aspecto exigente e influente com outros países, e continuará a sê-lo. Qualquer organização que pratique a violência não tem lugar num sistema de liberdades democráticas. Alguns países sofrem com este problema mais do que outros, mas todos pagamos. E concordo com a ideia de que a Comunidade Ibero-Americana deve contar com a solidariedade como um dos seus gestos de identidade e dar apoio permanente à Colômbia para erradicar a violência e o terrorismo.
Pergunta (Luis Arce, “Prensa Latina”, Cuba). Qual será a focagem que irá dar a Cimeira ao problema migratório? Receio que os problemas de Ceuta e Melilha desviem a sua atenção dos problemas da Ibero-América. Há problemas tão ou mais graves que os de Ceuta e Melilha; por exemplo, o que existe no México ou o que existe em Cuba com a Lei do “Ajuste Cubano”.
Resposta. A perspectiva que vamos definir em relação aos movimentos migratórios tem, fundamentalmente, dois pontos de focagem. Um deles é uma visão comum sobre os movimentos migratórios no seio da Comunidade Ibero-Americana. Embora possa haver outros problemas migratórios que afectam países da Comunidade Ibero-Americana, vamos falar de movimentos migratórios em geral. Em segundo lugar, falaremos da maneira como podemos fazer para que os fenómenos de migração contribuam mais para a riqueza dos países donde parte a emigração. Não podemos esquecer que Espanha é um país com grande experiência nesta matéria. Somos um país que teve inúmeros emigrantes, em Cuba, certamente, na Europa, no México, na Venezuela. Migração económica, migração política. Durante estes dias decorre uma homenagem ao México. Uma homenagem de gratidão pelo modo como se comportaram com os espanhóis.
Pergunta (Diana Mascís, “Televisión Nacional de Chile”, Chile). Michelle Bachelet tem muitas possibilidades de se tornar, em Dezembro, a primeira mulher Presidente do Chile e uma das poucas governantes latino-americanas. Face à sua experiência de governo paritário, qual o valor acrescentado que pensa que pode trazer uma mulher Presidente ou um Governo chefiado por uma mulher?
Resposta. Um valor muito importante, não só para o Chile mas também para toda a Ibero-América. Antes dizia que um projecto de futuro com esperança na América Latina era um projecto democrático e social. Sempre que se verifica um avanço democrático profundo na igualdade entre homens e mulheres, por exemplo, no âmbito do desenvolvimento, dos direitos, das garantias judiciais, da segurança da cidadania, consolida-se a democracia e abrem-se todas as portas para mais avanços sociais, para uma melhor política económica. Portanto, essa é uma magnífica notícia, caso se chegue a confirmar, como indicam as sondagens, que tenhamos no Chile uma mulher Presidente da República.
Pergunta (José Miguel Blanco Bermejo, “EFE”, Espanha). Pensa que, caso se confirmasse a presença de Fidel Castro na Cimeira, isso levantaria objecções por parte dos Estados Unidos ou poderia ser aproveitado internamente pela oposição em Espanha?
Resposta. Todos os países da Comunidade Ibero-Americana, os 22 países que integram a Cimeira, foram convocados. Nem todos estiveram em todas as Cimeiras e, certamente, se agora vierem todos será um êxito. Independentemente da situação política de cada país, aqui estamos a representar os cidadãos, uma Comunidade, e espero que o trabalho nesse sentido seja um trabalho que respeite a Comunidade Ibero-Americana e que respeite todos os países.
Pergunta (Rosa Veloso, “Rádio Televisão Portuguesa”, Portugal). Gira uma grande discussão em Portugal à volta duma grande empresa de comunicação social espanhola que pretende comprar uma cadeia de televisão portuguesa. Será este um assunto a debater na Cimeira?
Resposta. Se a discussão se situar no âmbito empresarial privado, não será um assunto em que os Governos intervenham. Se o Primeiro-Ministro português me expuser algo sobre esta matéria, é obvio que falaremos disso. No âmbito da comunicação social em Espanha, encontram-se aqui investidores estrangeiros de vários países, nomeadamente de Itália. Isto acontece numa economia de mercado aberta. Em qualquer caso, se o meu amigo Sócrates me expuser esse assunto, discuti-lo-emos.
Pergunta (Priscilla Guilayn, “O Globo”, Brasil). O Brasil confronta-se, neste momento, com a pior crise do seu Governo. Como pode isso ter afectado a credibilidade do Governo brasileiro? Como vê o Governo espanhol esta crise e como a vêem os empresários, os investidores na América Latina?
Resposta. O Brasil é uma potência económica de primeira grandeza no continente americano e fora dele. Espanha tem uma forte presença económica no Brasil que não será afectada, de forma alguma, pelas circunstâncias políticas. Não vai haver qualquer perda ou quebra da confiança, porque acreditamos que a situação económica do Brasil é sólida. E, em segundo lugar, desejo pessoalmente o maior dos sucessos ao Presidente Lula.
Pergunta (Macarena Lescornez, “El Mercurio”, Chile). Nos últimos tempos, embora se verifique uma estabilidade política e económica bastante sustentada, o mesmo não acontece nas relações com os países vizinhos. O Chile teve atritos muito complexos com países com os quais, até há muito pouco tempo, mantínhamos um bom relacionamento. Essa situação concretizou-se em faltas de apoio em momentos cruciais, tais como a eleição de um chileno para a Presidência da OEA. Chegou-se mesmo a dizer que existe uma nova etapa de isolamento do Chile na região. Qual é sua visão a este respeito?
Resposta. A minha visão sobre o Chile é clara e contundente: o Chile é um grande exemplo. Um grande exemplo de país democrático, que cresceu economicamente, que tem uma voz respeitada em todo o mundo. Parte desse respeito deve-se à figura do Presidente Lagos, cujo prestígio, tanto perante a esquerda como a direita, dum e doutro lado do Oceano, é muito grande.
Pergunta (Anelise dos Santos, “Jornal do Brasil”, Brasil). Em relação à situação do Brasil, a Vice-Presidente María Teresa Fernández de la Vega ofereceu o apoio explícito do Governo espanhol ao Governo de Lula. Em relação às próximas eleições, as sondagens não dão vantagem ao Presidente Lula. Como é que Espanha vê uma possível mudança de liderança?
Resposta. Deverá manter-se um respeito sagrado pelos processos eleitorais de cada país – neste caso do Brasil. Falta ainda algum tempo para as próximas eleições presidenciais e os brasileiros decidirão livremente. Seja quem for que assuma a responsabilidade de ser Presidente, sem dúvida alguma manterá a melhor relação com Espanha. Isso é um princípio de acção diplomática essencial no nosso País; ao mesmo tempo, posso dizer que, pessoalmente, desejo que tudo corra da melhor forma ao Presidente Lula, que é uma pessoa muito apreciada em Espanha.
Pergunta (Marcelo Risi, “BBC”, Serviço Latino-Americano). As tentativas de relançar o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, defender a PAC na Europa, pode gerar um problema de identidade, entre aspas, para Espanha? Pode a agenda externa espanhola entrar em contradição entre a Europa e o espaço ibero-americano?
Resposta. Não temos problemas de identidade. Nós queremos que haja, o mais cedo possível, um acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Apoiamos os países importantes da América Central que tinham problemas na aplicação de determinados regimes no âmbito comercial. Nós queremos que o comércio se abra, da União Europeia à América Latina e da América Latina à União Europeia, que se abram produtos básicos, assim como serviços. Isso é bom para os países, para o desenvolvimento, sempre que tal aconteça duma forma equilibrada. Portanto, não existe qualquer contradição. Haverá sectores que nessa abertura comercial necessitarão de mais apoio, reordenação, reconversão, mas somos firmes partidários dessa abertura. E acrescento, somos o país que permanentemente insiste e tem como objectivo poder ver concluído esse acordo do Mercosul com a União Europeia.
Pergunta (Juan Carlos Iragorri, “Cambio”, Colômbia). Se o Presidente Álvaro Uribe, para o desenvolvimento das suas negociações de paz com os paramilitares e, previsivelmente, com a guerrilha, lhe pedisse que recebesse por um longo período de tempo alguns líderes da guerrilha, o que lhe diria?
Resposta. A resposta é bem fácil: até que tal aconteça, não posso dar uma resposta. E não aconteceu. O que posso dizer é que Espanha está disposta a apoiar o Presidente Uribe no combate à violência terrorista.